Home Úteis Finanças Pessoais Cliente mistério: lojas de ouro desvalorizam jóias até 90%
Cliente mistério: lojas de ouro desvalorizam jóias até 90% PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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Segunda, 05 Dezembro 2011 18:38



O Económico visitou como cliente-mistério quatro lojas para saber quanto ofereciamBank por uma pulseira de ouro com pedras preciosas.

A pulseira francesa, dos finais do século XIX, repousava na balança electrónica e o silêncio tomou conta das negociações por uns segundos. A jóia tem cinco pérolas naturais, foi cravejada com seis safiras e os elos fundidos e trabalhados à mão por mestres artesãos. Naquele momento, uma peça com dois séculos de história e trabalhada à mão, não passava de um objecto vulgar. "Qual é o valor justo para si?", perguntou o funcionário de um ‘franchising' da Gold Buyers, uma das muitas lojas que compram e vendem ouro em Portugal.

O cliente-mistério salientou a presença de pedras preciosas na pulseira. "Não tenho formação para as avaliar", disse o rapaz, na casa dos 20 anos. Depois, num tom mais seco, acrescentou que poderia ligar para a chefe, na esperança de aumentar o valor oferecido.


Indiferente a tudo isto, o mostrador da balança, ligado automaticamente a um computador, mantinha-se implacável: a pulseira pesava 21,5 gramas e valia 274 euros. "Não vale a pena", respondeu o cliente-mistério. No mercado dos coleccionadores, ansiosos por encontrar objectos raros, esta jóia poderia atingir um valor oito vezes superior. Quando a peça estava a ser guardada na caixa, o funcionário jogou a última cartada. "A jóia é para derreter, pode levar as pedras preciosas consigo..."

O Económico visitou quatro lojas franchisadas no concelho de Lisboa da Gold Buyers, Casa de Crédito Popular, Ourinvest e Valores - e comprovou isso mesmo. A arte e a raridade da peça não são contabilizadas, fazendo com que a desvalorização da peça possa atingir os 90%.

O cliente-mistério partiu para o terreno com uma pulseira em ouro, cravejada com pérolas e safiras, cedida pela Associação Portuguesa de Gemologia. A peça está avaliada em três mil euros. "Os funcionários destas lojas deviam saber ler a jóia e oferecer um valor muito próximo do que ela realmente vale", alertou José Baptista, o presidente da Associação.

Mas não foi isto que aconteceu. Neste tipo de negócio, a balança e a cotação do ouro nos mercados internacionais deixam pouca margem de manobra para regatear o preço. Ou seja, é mais fácil comprar um tapete turco num bazar de Istambul por uma ninharia do que conseguir mais meia dúzia de euros numa peça valiosa.

A escalada do preço do metal amarelo abriu o apetite dos investidores pelas lojas de compra e venda de ouro. O número de novos estabelecimentos em 2010 aumentou 55% face ao ano anterior e, actualmente, existem mais de cinco mil, segundo dados da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

A crise financeira estimula o negócio. A maioria dos clientes são famílias, em dificuldade económica, que vendem jóias para esticar o orçamento mensal. No entanto, também há os que têm peças em casa e não as usam, optando por realizar mais-valias.

Em qualquer dos casos, os especialistas aconselham a visita a várias lojas. Nem todas pagam o mesmo. Por exemplo, a Casa de Crédito Popular ofereceu pela mesma pulseira 530 euros, praticamente o dobro do que foi dado pela Gold Buyers. "Não venda esta peça. Se os seus avós tivessem feito o mesmo agora não estaria aqui", diz o empregado, com uma entoação paternalista.

Em alternativa foi sugerido um empréstimo à loja. Neste caso, o cliente receberia 400 euros e pagaria uma taxa de juro mensal de 12,16 euros, acrescido de um seguro de sete euros. "Para recuperar novamente a jóia não pode ter mais de três prestações em atraso", explica. A pulseira ficaria guardada num cofre com alarme ligado à polícia.

"Muitas famílias optam por esta modalidade para desenrascar uma situação. Não se desfaça da jóia...vejo que tem muita estima por ela", continuou o funcionário.

De todas as lojas visitadas pelo cliente-mistério, a da Ourinvest foi a que deu mais privacidade na negociação. Ao entrar pela porta principal, ouve-se um sinal sonoro. No cimo da parede está uma pequena câmara de filmar. O espaço tem uma mesa com revistas, uma cadeira e uma segunda porta que se abre segundos depois.

No interior está uma funcionária, que atende o cliente mistério através de um vidro separador. Avalia a peça com uma lupa, interessa-se pela história da jóia e diz o seguinte. "Não se precipite. O máximo que posso dar é 400 euros. Procure em casa brincos ou fios partidos. Valem o mesmo da pulseira", diz.

Na loja Valores o diálogo foi menos construtivo. A funcionária observou a pulseira e avisou que apenas interessava o peso em ouro. As pedras preciosas não serviam para nada. "A jóia vale 505 euros", diz. "Mas não pode oferecer mais? Perto daqui avaliaram-na em 530 euros", afirmou o cliente mistério. A empregada encolheu os ombros. "Hoje não, mas amanhã a peça pode valer mais. Tudo depende da cotação do ouro."

O preço do metal precioso nos mercados internacionais é que dita as leis deste negócio. Mesmo assim, antes de partir para o terreno, o cliente- mistério ouviu um conselho precioso o presidente da Associação Portuguesa de Gemologia. "Trate a jóia com carinho e eles vão ter mais consideração por si", sublinhou José Baptista.

O veredicto confirmou-se: dois dos funcionários disseram ao cliente para não se precipitar na venda da pulseira e, em nenhuma das lojas, se ousou riscar a peça numa pedra de ardósia, onde depois seria colocado um líquido reagente para medir os quilates em ouro. Mostrar respeito pela jóia é fundamental para diminuir a probabilidade de fazer um negócio ruinoso.

DICAS PARA INVESTIR

  • Deve frequentar uma casa aconselhada e que seja reconhecida por investidores necessitando para isso de pesquisar alguma informação sobre o tema.
  • É fundamental saber o que está a vender e fazer todas as perguntas necessárias.
  • A técnica da peça, a raridade e a época em que foi feita são detalhes que podem inflaccionar o preço.
  • Em caso de dúvida pode contactar a Associação Portuguesa de Gemelogia, que informa o valor real da peça a vender ou comprar.

Fonte: Económico




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