Liderar é inspirar. Será que em Portugal há muitos líderes que inspiram?
A presidente da associação dos gestores de recursos humanos diz que a área da liderança é uma das que mais tem de ser melhorada em Portugal. Para Margarida Barreto, liderar é inspirar. E em Portugal isso acontece pouco.
Salários reduzidos, acusações de baixa produtividade... Os trabalhadores portugueses têm algum motivo para se sentirem orgulhosos?
As generalizações são sempre muito enganosas. Há muitos trabalhadores portugueses que têm muitos motivos para se sentirem orgulhosos e haverá outros que nem tanto. Em Portugal há pessoas que trabalham muito e muito bem, ao nível dos melhores países europeus ou mundiais, com muito empenho e dedicação, principalmente quando integrados em culturas participativas e inovadoras, com uma liderança forte e processos claros e bem organizados. Só assim se explicam os casos de sucesso mundial de algumas empresas portuguesas - de que infelizmente pouco se fala, se calhar porque não vende - e também o facto de várias subsidiárias portuguesas de empresas multinacionais serem as melhores subsidiárias do mundo dessas empresas.
O que falta aos trabalhadores portugueses?
Em termos gerais falta-nos coragem - para dizer o que pensamos no local certo (e não nas costas ou nos corredores) e lutar pelo que acreditamos; iniciativa e proactividade - estamos sempre à espera que façam por nós, decidam por nós, em vez de iniciar a acção e fazer acontecer aquilo que achamos que deve acontecer; capacidade de planeamento e organização e nalguns casos humildade e flexibilidade - para perceber que apenas estando constantemente a aprender se pode sobreviver no mundo actual e que nem sempre tudo pode ser como gostaríamos, sendo necessário capacidade de adaptação e resiliência.
E qual é a sua maior virtude?
Capacidade para resolver problemas, capacidade de trabalho, empenho e dedicação quando integrados em equipas e empresas com as características que já referi.
O que têm os gestores de recursos humanos feito para motivar os seus colaboradores nesta altura de crise?
Garantir que as pessoas conhecem a visão, missão, valores, metas e desempenho da organização da qual fazem parte e que os objectivos e comportamentos das equipas e individuais estão alinhados com os da organização; Contribuir activa e proactivamente para o desenvolvimento de um ambiente de trabalho que permita desenvolver e reter os melhores colaboradores e melhorar o desempenho dos que não estão a contribuir como esperado; Desenvolver e implementar processos e instrumentos de gestão que permitam a optimização do potencial de cada colaborador (gestão do desempenho, gestão da compensação, reconhecimento, formação e desenvolvimento, comunicação interna, etc) apoiando as chefias na sua aplicação prática junto das pessoas.
Os trabalhadores portugueses estão a ser bem geridos? Qual é o estado da liderança em Portugal nesta altura?
Embora existam excelentes práticas de gestão e liderança de pessoas em Portugal, penso que é das áreas que temos mais para melhorar. Gerir implica planear, organizar e fazer o ‘follow-up'. Liderar implica inspirar com base numa visão partilhada, responsabilizar, envolver, escutar e ajudar as pessoas a ter sucesso. Penso que muitos dos gestores de pessoas em Portugal ainda não actuam dessa maneira preferindo estilos de gestão mais coercivos e controladores.
Qual foi a pior decisão que teve de tomar nesta altura de crise?
Todas as decisões relacionadas com a negociação de saídas de colaboradores foram muito difíceis. Estamos a falar da vida de pessoas como nós!
Um gestor de recursos humanos tem de saber incentivar, por um lado, mas também tem de saber acatar as ordens superiores se for preciso despedir. Como é que se consegue gerir isto?
Acreditando que se os processos de negociação de saídas forem conduzidos de maneira correcta, tratando as pessoas com respeito e dignidade e ajudando-as a encarar, tanto quanto for possível, a situação como uma oportunidade de mudança, minimizamos o sofrimento humano da situação.
Que características pessoais e técnicas deve ter um bom gestor de RH?
Quanto a características pessoais, ter uma grande paixão por pessoas, ser um bom comunicador, ter capacidade de relacionamento com todo o tipo de pessoas, tenacidade, capacidade para estar sempre a aprender, resiliência, capacidade de escuta, assertividade, coragem, iniciativa, proactividade e capacidade de resolução de problemas. Quanto a técnicas, conhecimento do negócio da empresa, conhecimentos de gestão e boas competências na área de gestão de pessoas.
Quais são as características pessoais mais importantes que uma pessoa deve ter para se assumir no seu trabalho?
Humildade para saber escutar e aprender continuamente, flexibilidade para se adaptar às contínuas e imprevisíveis mudanças, boas competências técnicas e "saber estar/ser" modo certo no local certo, sendo emocionalmente inteligente.
Perfil:
A ainda recente - desde Abril - presidente da Associação Portuguesa de Gestores de Recursos Humanos é licenciada em Psicologia e desde 2001 directora de Recursos Humanos da farmacêutica Merck Sharp & D ohme. Antes, passou por várias outras empresas na área do recrutamento e gestão de pessoas. É autora de vários artigos nesta área e co-autora do livro Gestão de Talentos, de 2001.
Fonte: Económico